2 de fev de 2010

Trote nas Universidades: um assunto bem mais sério do que se pensa


Por Germana Barros*
para o Blog do Fábio Rodrigues

O que leva um grupo de estudantes universitários (???) a fazer barbaridades com outros estudantes universitários? Essa pergunta não me sai da cabeça já há algum anos, mas agora, início de 2010, ao assistir uma reportagem na TV sobre um estudante que foi obrigado a beber álcool combustível num desses trotes (???), resolvi escrever a respeito.

O Trote estudantil (ou simplesmente trote) é uma tradição em todo o Brasil, de forma simplificada podemos dizer que o trote consiste numa série de atividades que os veteranos (alunos que ingressaram em anos anteriores na universidade) fazem com os calouros (bixos, bichos, feras...), que são os alunos que estão ingressando na universidade. Essas atividades são as mais variadas possíveis, desde pintar os estudantes novatos com tinta guache (que sai com água e não é tóxica) até atos de violência. E é justamente por causa desse último tipo que muitos estudantes sentem uma alegria enorme ao passar no vestibular e ao mesmo tempo um medo incrível do que lhe espera quando finalmente entrar na universidade.

Em pleno século XXI é difícil de acreditar que estudantes universitários (talvez nos vestibulares devesse ter teste psicotécnico) possam obrigar outro estudante a ingerir álcool combustível após sofrer agressões físicas e psicológicas (como é o caso do estudante da Unicastelo, acontecido agora em 2010) ou mesmo obrigar outro estudante a ingerir uma enorme quantidade de cerveja a tal ponto que ele quase entre em coma alcoólico, fique desacordado e passe 24h numa UTI (como ocorreu com um estudante da UFPR, no início desse ano). Infelizmente os primeiros registros desse tipo de trote não são recentes, remontam do século XIX. Acesse a cronologia dos trotes no site do movimento antitrote, clique aqui.

Uma das premissas básicas, no meu ponto de vista, é que ninguém pode obrigar ninguém a nada, independente do que for. Seja trote dito solidário (que são aqueles com a intenção de realizar boas ações), trote de brincadeiras inofensivas e principalmente trotes violentos ou com bebidas alcoólicas.

Fazendo uma breve pesquisa na internet, percebe-se que a maioria desses trotes ocorrem dentro das próprias Instituições de Ensino Superior. Onde estão os responsáveis por essas instituições? Onde estão os seguranças (se é que existem) dessas instituições?

Sinceramente torço para que esses alunos que sofrem esses abusos, mascarados com o nome de trote, tenham a coragem de denunciar, mas denunciar todas as instâncias, pois não adianta só denunciar os alunos que aplicaram o trote, porque assim sendo a universidade continuará sem perceber sua responsabilidade nisso tudo e não adianta denunciar só a Instituição de Ensino Superior, porque os alunos continuarão agindo.

Mas, apesar dessas experiências negativas de trote, não posso esquecer-me de citar os trotes solidários, que cumprem seu papel de dar as boas vindas aos estudantes novatos e de integrá-los ao resto da comunidade acadêmica, além de despertar neles, desde o início do curso, sua responsabilidade social perante a sociedade.

Há experiências de trotes solidários organizadas por diferentes organizações, desde as próprias universidades, às entidades estudantis e até mesmo fundações. Para ilustrar seguem três exemplos:

A FENEAD – Federação Nacional dos Estudantes de Administração desenvolve um projeto chamado “Trote Cidadão” (clique aqui e acesse), que existe desde 1998. “O trote cidadão é uma campanha nacional para a recepção de calouros universitários, que visa estimular a integração sadia e responsável destes ingressantes ao ambiente universitário e ainda promover o protagonismo juvenil com iniciativas junto às demandas da sociedade”.

A Fundação Educar DPaschoal desenvolve o “Trote da Cidadania” (clique aqui e acesse) focado nos “8 jeitos de mudar o mundo”. “O Trote da Cidadania é uma alternativa ao trote violento que proporciona, além da integração do veterano com o calouro, uma oportunidade de mobilizar esforços universitários para uma ação social.”

A Universidade de Campinas (UNICAMP) desenvolve o “Trote da Cidadania pelo Consumo Consciente” (clique aqui e acesse). “Em 1998, surgia o Trote da Cidadania na Unicamp com a faculdade de Engenharia de Alimentos cujo principal objetivo consistia em aproximar os universitários com a comunidade de Campinas, desenvolver o conceito de cidadania ao mesmo tempo em que fosse proporcionada ao estudante uma nova visão de seu papel social.” Atualmente mais de 30 cursos participam do Trote da Cidadania.

Aqui deixo o recado para que as Instituições de Ensino Superior dêem mais atenção aos trotes, tanto os violentos e abusivos, no sentido de reprimi-los, como aos trotes solidários e humanos, no sentido de apoiá-los.

* Administradora formada na FCAP/UPE, servidora pública federal.


Postagem relacionada: "Banco de Boas Práticas - Juventude e Políticas Públicas de Juventude", clique aqui.



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4 comentários:

  1. Bom vê-la voltar a escrever. É um absurdo continuarem realizando tais tipos de trote, onde existem belos exemplos de trotes cidadão. As Universidades têm um papel importante de sensibilizar os seus alunos e professores. Parabéns!! E parabéns p Fábio tb pela abertura do espaço!! Continuem!!
    Bjs Mariana

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  2. Cara Germana,

    Os rituais de iniciação são importantíssimos em todas as culturas conhecidas. Fortalecem os laços sociais e auto-estima dos inciados, valorizando a nova posição conquistada. De fato precisamos urgentemente melhorar a qualidade dos nossos rituais de iniciação, acabando com a barbárie e estimulando o crescimento e amizade de veteranos e calouros.

    Parabéns pelo texto, ninguém melhor q vc para escrevê-lo!!

    bjos

    Rodrigo

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  3. Olá Mari e Rodrigo!

    Realmente é bom voltar a escrever textos com uma pauta minha. =)

    Agradeço a contribuição de vocês ao debate. E é isso mesmo, também acho importante o trote como ritual de iniciação, de passagem, mas desde que seja um trote solidário e/ou humano, sem violência e sem atos depreciativos.

    Bons Ventos de Esperança!
    Abraço,
    Germana Barros

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  4. Oi Mari,

    Que bom você por aqui!

    Essa abertura para Germana nos honra bastante, pois ela, e você também, tem um conhecimento acumulado muito grande sobre pragmatismo juvenil. Sem contar claro, na liderança reconhecida das duas desde o Prêmio Fenead.

    Conheço vocês desde 2002 e tenho uma admiração enorme pela dignidade, caráter e exemplo de luta no movimento social.

    Nossos amigos eleitores agora também poderão conhecer um pouco mais da nova colunista do blog, com textos estigantes que virão.

    Abraço fraterno.

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