14 de nov de 2009

FHC e o Saudosismo Oligárquico


Por Lúcio Flávio Vasconcelos, no WSCOM

Em recente artigo publicado em diversos jornais e blogs, intitulado para onde Vamos?, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perdeu sua característica fleuma aristocrática e, ao tecer várias críticas ao governo Lula, revelou arrogância e prepotência, além de um profundo saudosismo oligárquico, ainda tão arraigado em muitos políticos.

Em seu texto, Fernando Henrique vai fazendo comentários sobre o comportamento político do governo Lula. Fugindo do didatismo e elegância estilística, características até então cultivadas pelo douto professor, o artigo revela muito mais preconceitos e opiniões panfletárias do que críticas pertinentes, tão necessárias ao pleno exercício da democracia.

Logo no início, afirma que “alguns estão inebriados com a riqueza fácil que beneficia a poucos.” Fernando Henrique esquece que não são poucos os beneficiados com o recente desenvolvimento do Brasil. Milhões de brasileiros abandonaram a linha de pobreza a que estavam condenados, graças ao programa Bolsa-família, considerado internacionalmente como o maior programa de distribuição de renda do mundo. Além disso, o salário mínimo de mais de 200 dólares é o maior em poder aquisitivo desde 1976.

Em seguida, o ex-presidente Fernando Henrique critica, assustado e indignado, o fortalecimento dos sindicatos e do próprio Estado. Segundo ele, “estaria dificultando a vida dos empresários” e criando um “subperonismo”. Fernando Henrique esquece que, durante todo o século XX, os trabalhadores do Brasil lutaram para o fortalecimento de suas entidades representativas. Além disso, é inegável o papel estratégico do Estado nas políticas de desenvolvimento. Sendo assim, atualmente tanto o empresariado nacional quanto as classes trabalhadoras estão usufruindo do ciclo de crescimento e distribuição de renda que passa o país.

Fernando Henrique esqueceu de falar que, quando governou o país, entre 1997 e 2002, colocou em prática um dos maiores processos de privatização de empresas estatais, ao mesmo tempo em que realizou um profundo desmonte de políticas públicas voltadas para os setores populares. Basta verificar o descaso com o sistema federal de ensino superior do país foi tratado durante sua gestão. O saldo dos seus oito anos no poder foi um país fraco economicamente e sofrendo apagões energéticos permanentes.

Quando fala do projeto de investimento nas Forças Armadas, Fernando Henrique chega ao ápice da ironia. Adotando um inusitado estilo debochado, não condizente com a postura de um ex-presidente, dispara: “viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o pré-sal.”

Fernando Henrique desconhece que o Brasil é um dos paises que menos investe nas Forças Armadas. Com sua dimensão continental, o país conta com apenas 350 mil homens no Exército, Marinha e Aeronáutica para defender suas extensas fronteiras.

O plano de recuperação das Forças Armadas do governo Lula significa investimentos necessários na aquisição de equipamentos estratégicos (helicópteros, caças e submarinos) para a modernização na área de segurança e assim viabilizar profissionalmente a plena execução dos preceitos constitucionais das três armas.

Fernando Henrique chega ao auge da sua desrazão quando acusa o governo Lula de autoritarismo, comparando-o ao regime militar. Ao afirmar que o atual bloco no poder está forjando um subperonismo, fazendo alusão ao peronismo argentino, Fernando Henrique distorce a realidade, esquece a história e abandona de vez o equilíbrio de professor.

Juan Domingos Perón, coronel do exército argentino, era um profundo simpatizante do fascismo italiano. Chegou ao poder com ministro de um governo militar e só depois assumiu uma postura populista, baseando-se na mobilização popular dos setores desorganizados da sociedade. Foi eleito presidente em 1946, com um discurso de incorporação dos descamisados a aristocrática sociedade argentina.

Nada mais antagônico de Lula do que o peronismo. A trajetória de Lula sempre foi através dos sindicatos e do Partido dos Trabalhadores, todas entidades representativas. Mesmo contando com a aprovação de 80% dos brasileiros, Lula manteve-se na legalidade. Nunca tentou alterar a Constituição para ampliar seus poderes ou obter um terceiro mandato. Diferentemente de Fernando Henrique Cardoso que, com métodos pouco recomendáveis, modificou a Constituição para ser reeleito.

Em seu artigo, Fernando Henrique traduz não só seu pensamento conservador e preconceituoso com a gestão de Lula, como também revela um saudosismo oligárquico de um tempo não muito remoto em que só os ricos e poderosos, membros das elites tradicionais, determinavam os destinos da nação. Mas os avanços democráticos da nossa frágil república têm deixado para traz esse tempo. Esperamos que não volte jamais.



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