19 de mar de 2010

Pernambuco: Mais uma vítima do Hospital Português


Por Marco Bahé, no Acerto de Contas

Ano passado, nosso amigo Pierre Lucena contou aqui suas desventuras no Hospital Português – post no qual Pierre cometeu uma injustiça, comparando este “hospital” com o da Restauração (sou mais o velho HR). Surpreendeu-me a quantidade de comentários (mais de 100), muitos com relatos sobre casos absurdos neste mesmo hospital, indo de mal-atendimento a erros médicos que resultaram na morte dos pacientes. Hoje, recebo relato de uma assídua frequentadora deste blog que foi ao Português socorrer um amigo e saiu de lá (ela, não o amigo acidentado) precisando de uma cirurgia no joelho.

Vejam o relato:

Cheguei ao hospital Português por volta de 13h da última terça-feira (16.03). Fui acompanhar um amigo que havia sofrido pela manhã um acidente de moto. Ele estava na emergência do hospital, aguardando exames e a definição médica diante do quadro grave, com quebra de bacia. Cheguei ao hospital de carona e desci em frente a emergência, subi alguns degraus e quando cheguei bem próximo à porta de vidro que dá acesso à emergência (cujo piso é de mármore) escorreguei e cai no chão com a perna esquerda para trás. Só quando cai percebi que haviam várias manchas de óleo no chão – percebi que era óleo porque minhas mãos e minha roupa ficaram sujas e com o cheiro do óleo.

A dor foi terrível e passei alguns segundos, talvez até mais de um minuto, tentando me levantar, o que só foi possível com a ajuda de algumas pessoas que estavam dentro da urgência e correram para me ajudar (pacientes e acompanhantes) e um – apenas um – funcionário da emergência (acredito eu fosse da portaria) e que se disse “da brigada”. Esse pessoal me colocou em uma cadeira de rodas e me levou até o balcão da emergência (que ficava a uns 30 metros no máximo da porta onde cai). Apesar de terem visto o ocorrido, a única coisa que as recepcionistas perguntaram foi: qual é o seu convênio. Eu fiquei revoltada e perguntei se eu não tivesse convênio não seria atendida apesar de ter caído em uma mancha de óleo dentro do hospital? Ninguém respondeu.

Deixei minha carteira do convênio e minha habilitação no balcão e entrei, na emergência, para falar com meu amigo que estava lá, deitado em uma maca. A esposa dele, que também é minha amiga, percebeu que eu estava ferida e perguntou o que aconteceu. Neste momento a dor na perna piorou muito e eu falei com o um grupo de médicos e enfermeiros que estavam no posto de atendimento dentro da emergência e contei o que aconteceu. Muitos esboçaram reação de indignação. Um deles foi até a recepção e mandou que agilizassem meu atendimento. Minha amiga foi até a entrada da urgência e fez fotos das poças de óleo com sua maquina digital. Só então alguém me levou até a frente de uma outra sala, onde esperei mais uns 15 minutos, sozinha que o ortopedista que havia chegado para dar plantão me atendesse.

Neste período vi um funcionário da limpeza passando e ele comentou com outro que estava próximo que ia limpar “umas manchas de óleo”. O segundo funcionário disse “de novo? Semana passada foi à mesma coisa” Contei a ele o que havia acontecido e informei que tinha um grampo no joelho esquerdo atingido pela queda e que percebi que além do inchaço havia um corte, que aparentemente havia sido feito de dentro para fora. Ele visualizou e explicou que deveria ser por causa do grampo, que saiu rasgando por dentro. Durante a consulta ele chamou por três vezes um funcionário (tocando uma campainha) e só quando ele saiu para chamar é que alguém apareceu. O médico me encaminhou para o RX e entregou a requisição do exame para o funcionário. Este me levou na cadeira de rodas até a porta das salas de RX, em um anexo à emergência. A esta altura estava preocupada com minha integridade, já que a dor aumentava muito e ninguém parecia nem um pouco preocupado. Liguei para meu irmão – que havia saído do hospital assim que eu cheguei, usando inclusive a mesma carona que me levou. Ele chegou no hospital cerca de 20 minutos depois de nos falarmos e me encontrou ainda aguardando alguém para tirar meu RX.

Questionei a uma funcionária do local o motivo de tanta demora e ela disse que não havia nenhuma solicitação minha no local. Pedi para falar com alguém da ouvidoria, da administração do hospital. Em alguns minutos chegou uma senhora que se identificou como Mercedes, funcionária da administração do Real Imagem (clínica de diagnóstico por imagem do Hospital). Ela cobrou da recepção minha ficha e a requisição do médico. Só então o pessoal do Real Imagem me levou até a sala de exames, onde foram realizados dois RX. Informei e Mercedes que gostaria de falar com a Ouvidoria, mas que apesar de ter feito vários pedidos para que fossem acionados, ninguém ainda havia me procurado.

Alguns minutos depois fui levada de volta ao corredor próximo ao consultório onde fui atendida pelo ortopedista. Meu marido chegou quando eu estava aguardado o novo atendimento, no corredor entre os consultórios e a sala da emergência. Depois de alguma espera fui novamente atendida por ele. Não houve fratura, mas de acordo com os exames de imagem ficou claro que houve um deslocamento do grampo, que parecia ter saltado para frente. O médico explicou que provavelmente eu teria que fazer uma cirurgia para tirar o grampo, mas que ele preferia que eu fosse no meu ortopedista no final da semana, quando o trauma estaria mais aliviado e ele poderia examinar melhor. Ele (o médico) disse ainda que eu teria que engessar o joelho e a perna e que tomaria alguns medicamentos para aliviar a dor antes de ser liberada e me prescreveu outra medicação para tomar em casa.

Fui encaminhada a sala de gesso, onde tive minha calça (nova) cortada (estava de calça jeans) e “ganhei” uma tala de gesso que ia da coxa até quase o tornozelo esquerdo. Foi nesta sala que um funcionário que se identificou como Bené, e estaria lotado na Ouvidoria foi até a mim. Eu mais uma vez expliquei tudo o que tinha acontecido e informei que queria uma cópia de toda a documentação relacionada ao meu atendimento, incluindo os exames. Pedi também que disponibilizassem uma cópia das imagens que estavam no circuito interno de TV já que havia uma câmera bem em frente do local da queda. Este funcionário disse que não poderia ceder este material e que iria falar com uma pessoa chamada Teresa, que trabalha na “Hospitalidade”.

Depois deste procedimento (gesso), fui levada novamente para a sala da urgência, onde fiquei sentada na cadeira de rodas para tomar algumas medicações injetáveis (colocadas dentro de um tubo de soro). Passei mais 1h30 fazendo isso. Durante este processo, a Teresa, da “Hospitalidade” foi até lá. Repeti mais uma vez o ocorrido e pedi as imagens. Ela disse que de fato as imagens estavam gravadas, mas que ela só poderia guardar no “backup”, mas não poderia nos ceder. Informei que iria acionar juridicamente o hospital e que se eles não me dessem teriam que dar à Justiça. Visivelmente constrangida ela disse que “infelizmente não poderia entregar”. Ela disse que ria repassar o caso ao pessoal do Jurídico e à Administração Médica e que eles entrariam em contato, porque “já tinham os meus dados e contatos”. Sai do Hospital Português por volta das 17h, na companhia do meu marido – que a esta altura já havia perdido meio dia de trabalho. Compramos a medicação prescrita pelo médico.

Nestes dois dias (hoje é quinta-feira) senti muitas dores. Estou impossibilitada de ir ao trabalho (tenho três empregos). Não posso cuidar sozinha de meus filhos, de minha casa. Sequer posso deixar ou pegar meus filhos na escola. E ninguém do hospital ligou sequer para saber se eu estava viva, se precisava de alguma coisa.

Hoje à tarde fui a uma consulta com o meu ortopedista e as notícias foram as que eu não queria ouvir. Vou ter que operar o joelho para a retirada dos grampos e para ver se os danos foram maiores que dá para ver nos exames. A cirurgia envolverá os riscos de qualquer cirurgia que necessita de anestesia. Terei que passar mais tempo afastada do trabalho, talvez até tenha até que entrar em benefícios (INSS). Não poderei cuidar dos meus filhos por mais tempo. A recuperação envolverá andar de muletas, fisioterapia e vários outros impedimentos a minha vida normal, cheia de compromissos e responsabilidades. Isso sem contar os custos – que além dos remédios, envolverão o pagamento de honorários de especialistas como instrumentador, para acompanhar a cirurgia.

Estou muito, muito irritada. Não cai na rua. Não cai em casa. Não fiz nada de arriscado ou ilegal. Estava apenas tentando dar força a um casal de amigos queridos, dentro de um hospital, quando fui vítima da irresponsabilidade de uma instituição de saúde, que deveria ser a primeira a zelar para que as pessoas, pacientes ou não, sejam bem tratadas e não passem por este tipo de absurdo!

Gostaria de repetir algumas perguntas que fiz aos distintos funcionários do Hospital Português.

E se fosse um idoso? Ou uma gestante? E se fosse alguém que não tivesse plano de saúde? E se fosse alguém que estava com outros problemas de saúde e que a queda o levasse à morte?

Gostaria, sinceramente, que este hospital e sua direção sentissem vergonha. Gostaria que todos soubessem que estarei temporariamente fora de minhas atividades normais porque algum irresponsável, acobertado por gestores incompetentes, deixou que manchas de óleo derrubassem uma pessoa que luta todos os dias por um mundo melhor, e que apesar de todo este absurdo continuará lutando.

Monica Crisostomo



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