30 de abr de 2009

Costa-Gavras chama Lula de "gênio" durante sabatina no Recife

Constantin Gavras ou Costa-Gavras

Do JC Online

Na tarde desta quarta-feira (29), o diretor greco-francês Constantin Gavras ou Costa-Gavras, como é mais conhecido, que está no Recife para o lançamento de seu novo Eden à l'ouest no Cine PE Festival do Audiovisual, participou de uma sabatina promovida pela Folha de S. Paulo. Desta vez a conversa foi em francês (na segunda-feira, Gavras falou com a imprensa em inglês e ontem, em espanhol), com tradução simultânea. Mais à vontade com a língua, o cineasta se soltou mais e o debate foi mais profundo que a coletiva de terça-feira. O evento, que durou cerca de duas horas foi aberto com perguntas dos três jornalistas da Folha de S. Paulo, o crítico Inácio Araújo, o editor de moda Alcino Leite Neto e a repórter Silvana Arantes. Somente depois, algumas perguntas da plateia foram feitas por escrito.

LULA

Costa-Gavras disse que durante o almoço de hoje ficou sabendo do filme que o cineasta Fábio Barreto está fazendo sobre o presidente Luis Inácio Lula da Silva. "Nós, na Europa, temos grande admiração pelo presidente Lula. Vejo que, de alguns anos para cá, a democracia vem se instalando na América Latina e a intervenção dos Estados Unidos começou a se afastar", comentou.

Gavras disse ter tomado conhecimento também da origem do presidente e fez uma comparação à história dos membros da Orquestra Criança Cidadã, composta por crianças e adolescentes do Coque, comunidade marcada pela pobreza e violência. "Nas favelas há gênios. Isso prova que os governos devem cuidar da população que está em situação de abandono", frisou. Questionado sobre o que achava do fato de estarem fazendo um filme sobre a vida do governante, Gavras disse que é preciso que a película seja "justa, sem manipulação e ideologia. Que mostre aquilo que é". E concluiu. "Acho que vai ser um bom filme".

Ainda sobre o presidente Lula, Gavras disse que durante as eleições brasileiras estava nos Estados Unidos e o que ouvia era "que o comunismo estava chegando no Brasil e que isso devia ser combatido".

TROPA DE ELITE

Gavras foi perguntado também sobre o filme Tropa de Elite, do diretor José Padilha. "Fiquei profundamente emocionado pelo filme. Para mim, falava que o poder abandonou a justiça. Dizia que a polícia podia fazer o que quiser. O poder permite que ela aja assim. É claro que os policiais se tornam fascistas, pois dizem a eles que são os salvadores da pátria. É uma mini-ditadura praticada pela polícia e que é aceita e autorizada pelo poder público", disse.

Informado sobre a reação de alguns espectadores no Brasil, que apoiavam a atuação brutal da polícia, Gavras reagiu. "Isso é grave. Se o poder deixa ao público a ideia que a solução é a polícia é muito grave. É mais grave ainda se a população se sente abandonada pelos políticos e pela justiça".

CINEMA NACIONAL

Costa-Gavras ressaltou a importância do cinema nacional. "O cinema deve ser livre. Cada país tem que ter o seu próprio. Essa é uma maneira de se conhecer, de se ver e de se apresentar lá fora. Mas o cinema nacional não pode existir sem ajuda do Estado. Não é só dinheiro, mas regulamentação que o ajude a existir".

O cineasta falou também da importância do cinema de uma maneira geral. "Acho que o cinema, desde seu nascimento, teve papel muito importante na nossa sociedade. Um papel sobre a formação da sensibilidade das pessoas. Mostra o que é invisível sem ele. Alguns dizem que o cinema é só para divertir. Sou contra. Até o cinema de diversão é político, porque impede que as pessoas reflitam", afirmou.

CINEMA & OBAMA

Gavras comentou, concordando com ele, um artigo do The New York Times que explicava como a sétima arte ajudou na eleição do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. "O cinema tinha mostrado o negro como operário ou pessoas sem condições de ocupar posições muito importantes. Mas nos últimos anos, mostrava-o em posições altas. O cinema modificou a imagem do negro na sociedade".

RODAR NO BRASIL

Constantin foi questionado se tinha intenção de filmar no ou sobre Brasil, pois já havia filmado sobre a ditadura no Chile. O diretor esteve aqui na década de 70, pesquisando para seu filme Estado de sítio. "Dava vontade de fazer um filme, mas, para isso, precisava de uma história e eu não tinha. Precisava viver no Brasil para conhecer e não tinha condições de fazer isso. Não me sinto capaz de fazer um filme aqui", justificou.

EDEN À L'OUEST

O diretor respondeu a perguntas sobre seu filme e contou algumas curiosidades. Uma das mais relevantes é em relação ao idioma falado pelo protagonista de Eden à l'ouest. Na história, Elias é um jovem imigrante que entra na Europa com o objetivo de chegar a Paris. Na saga do rapaz, ele enfrenta os dramas provocados por um continente conservador e um tanto xenófobo. O interessante é que Elias não tem uma origem definida. Ele é, simplesmente, um estrangeiro. Até um idioma foi criado para o personagem. "Não quebrei muito a cabeça. As falas são em francês ao contrário. Os atores é que tiveram uma certa dificuldade pois não sabiam o que estavam falando".

Nesta quarta-feira, ele voltou a salientar porque mescla humor ao drama do personagem. "Os outros filmes acabam transformando os imigrantes em portadores de tragédia. Por isso tratar de uma maneira tragicômica. É a história dessas pessoas, mas também de nossa sociedade e como ela reage", explicou.

Gavras revelou que Eden à l'ouest é bastante pessoal. "Conheci essa situação (a do imigrante na Europa) quando cheguei à França. Não falava bem francês. Era a descoberta de um novo mundo. Não é um filme biográfico, mas é pessoal".

Foto: Daniel Guedes/JC Online


Não deixe de comentar nossas postagens.

Gostou desse assunto, envie para seus contatos.

Obrigado pela visita e esperamos sempre sua volta.

Site: http://www.fabiorodrigues.com
Contato: fabiorodrigues@fabiorodrigues.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Clique no link "Postagem(ns) mais antiga(s)" (acima), para continuar lendo nosso blog. E a qualquer momento clique no link "Início" para voltar a página inicial.